


O Inevitável Entardecer
Escolheu com delicadeza uma caixinha de papelão colorido e fitas de seda onde acolheu algumas lembranças e sentimentos que teimavam, vez por outra, em escapar.
Sonhos desidratados; um guardanapo de bar onde lhe ofertaram um pequeno poema de Pessoa; uma rosa desidratada; uma pequena embalagem de fósforos (mimo aos fumantes dum happy houer inesperado que a fizera feliz); um saquinho plástico com um punhado de areia de praia visitada a dois; um terço ofertado em proteção de um amor que não se concretizou; algumas fotos recortadas; vida entre suspiros e surpresas.
Certo, nada a esconder, mas precisava preservar-se da curiosidade indesejável dos que tentavam bisbilhar sua intimidade.
Sempre que abria sua caixinha, revivia momentos numa overdose de encantamentos. Um caleidoscópio de emoções. Sem preocupações.
Mas o tempo, perdido no tempo a destacar folhas do calendário, desbotava-se sem piedade.
Imprimiu rugas em sua face distanciada da juventude. Agendou vulnerabilidades.
Esfarelou o quase relicário e esparramou seus guardados no fundo do armário.
Seria dramático se não fosse, naturalmente, o caminho inevitável do ser.
Aspirou suas lembranças e deixou-se conduzir pela brisa da tarde até o anoitecer.
rosangelaSgoldoni
08 03 2026